Já não era cedo. E pela sombra do muro, rasa, confirmava-se isso.
De qualquer modo, aqui o tempo torna-se irrelevante. Abraços, quando abraços, afugentam o tempo; e posso dizer que ali o abraço era bem atado.
O irmão-menino aparentava desconforto, afinal não se abraça assim em público. Enquanto as irmãs-menininhas concentravam-se mais eram nas pernas, paralelas, ao alcance. Uma de cada lado, e os três juntos, formavam uma geometria de pódio, cujos ápices resultavam em cabelos lisos e negros.
Ele de cinza confundia-se com o fundo branco-encardido do muro; mas era resgatado pelo branco-cor-de-rosa dos uniformes para menininhas. Desejava andar, desconfio; se não fosse a presença de cada irmãzinha pesando desiguais em cada lado de seu corpo. Argumentava algo, precisava partir. Era necessário desprender os corpos. As irmãs, imunes, cada vez mais pressionavam seus rostos contra a carne rija do irmão.
Aproximando-me da cena, constatei uma singularidade: os irmãos, e ali julguei quase certo de que eram irmãos, não eram brasileiros (e aqui uso de uma negativa, pois afirmar a nacionalidade sou incapaz). Eram peruanos, bolivianos ou colombianos, não sei. E nisso não ofendo; como não me sinto ofendido quando japonês, chinês ou coreano são utilizados para me adjetivar.
Para aonde seguia aquele irmão, que com tanto vigor era detido pelas irmãzinhas? Pensei em inúmeras hipóteses. Pensei nas minhas nem tão pequenas irmãzinhas. Pensei na imigração. Pensei no Brasil, e nos seus países vizinhos. Pensei na minha casa. De fato, tentei lembrar da minha casa, e acabei juntando os pedaços das minhas casas. Pensei que tudo aquilo era o começo ou o final de algum filme.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Os pódios são sempre no final.
Postar um comentário