sábado, 23 de maio de 2009

mão esquerda







Sou destro.
Assimétrico, pendendo para a maioria.







Porém, quando criança, no ensaio dos meus primeiros passos, sofri um acidente na mão esquerda. Sangue e lágrimas contra o indiferente metal.
Penso por vezes o significado disso.
Penso, por exemplo, por que, num gesto tão necessariamente preciso quanto é o de agarrar, segurar, usaria eu, numa fase digamos, assim, instintiva, a "mão ruim"? Essa questão me leva a conjecturas.
Lembro, como é de conhecimento popular, o fato-mito de que os canhotos são mais "talentosos", artísticos. Acreditar nisso é como crer nos astros (aqueles situados no cosmo); mas não quero me despir de toda crença. É como crer que dadas coisas já estão inscritas, e que por isso a sua apreensão se dará sem tanto esforço.
No ímpeto de se autodesejar artista, tendo há crer que em "essência" sou canhoto; e que o acidente, que imobilizou a minha mão esquerda por dado tempo, traumatizando-a , foi o responsável pela impossibilidade da expressão desse dom natural.
Talvez isso explique o fato da minha histórica inabilidade destra para o desenho manual: tão admirado, e, por outro lado, difícil, na minha desejosa infância. Ou mesmo, a falta de jeito para o futebol; pois não é chutando com o "pé errado" que se começa uma boa partida.
O fato é que canhotos são mais raros. Deve existir um estudo percentual sobre a sua absoluta minoria. É provável mesmo que existam ONGs para protegê-los, e que hora ou outra farão uma passeata pela Paulista, começando no MASP, até a Consolação.
Todo destro sente-se massificado.
Por isso, como todo mundo, gostaria de ser especial. E essas pequenas coisas que incucamos na cabeça, e que por vezes nos fazem especiais num sentido negativo, por vezes também nos ajudam a buscar essa "especialeza". Como quando um elogio passageiro, de alguém que passa, sob certo sentido, indiferente à nossa vida, incita-nos a decidir por determinado destino: decide a nossa vida.

domingo, 17 de maio de 2009

ao solitário leitor

ao solitário leitor que livra
o incansável escritor do júbilo sadomasoquista da
masturbação:
saúdo, como quem não cortou as mãos,
sequer as ideias;
mas que,
ao contrário,
tenta, tolo, atar tudo e todos.

as coisas que não encontram lugar sequer nas palavras,
mesmo sabendo de sua opressão,
são confessas nas imagens mais toscas.

O cinema tenta salvar o escritor; de si, por si.