sábado, 24 de maio de 2008

essa mania de voyer...

Não a vi sentar. Quando olhei já estava, ali, sentada. Sentou-se meio de lado, o corpo desvirado a um sentido norte, por pura sorte... De modo que só era possível enxergar as pernas - sobressalentes do ângulo em que as via.

Usava um vestidinho preto, de tecido mole e fresco, colado à coxa. Seus sapatos eram desses retrô, reluzentes sob a fosforescente luz da biblioteca. Baixos e escarlatinos, contrastavam com a brancura dos tornozelos.

Sentada, manteve-se imóvel por um breve período: dois segundos e meio, se bem me recordo. Aí, então, num piscar de olhos nos quais meus olhos atentos olhavam, cruzou as pernas.

O gesto banal, lateralmente visto, deu-se de modo brando e seguro. Escapou-lhe o sapato ao pé, e preso aos dedos manteve-se oscilante, convidativo. Veio-me à idéia que Visconti, apesar de gay, tinha o olhar masculino.

Tratava-se de um rito sagrado, de uma coisa!...


Depois, no balcão vazio, permanecia somente a eternidade de "Les demoiselles", em impressão A4.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Palhaçada

O palhaço entoava em versos firmes: "que a gente vai levando, que a gente vai levando..."; mas ninguém se incomodava. As mulheres ao lado riam; nem com ele, e sequer dele. O palhaço protestou: exigia público. O cobrador, agora, olhava desconfiado. Logo atrás, a embriaguez, vestida de chapéu e rugas, esbravejou, para desespero do palhaço: "Você não é um palhaço! Você é um profissional!" Era o fim. A palhaçada havia sido burocratizada por um ébrio! O ônibus seguiu e o palhaço perdeu o ponto.

Certo Trecho da(e) vida

Já não era cedo. E pela sombra do muro, rasa, confirmava-se isso.

De qualquer modo, aqui o tempo torna-se irrelevante. Abraços, quando abraços, afugentam o tempo; e posso dizer que ali o abraço era bem atado.

O irmão-menino aparentava desconforto, afinal não se abraça assim em público. Enquanto as irmãs-menininhas concentravam-se mais eram nas pernas, paralelas, ao alcance. Uma de cada lado, e os três juntos, formavam uma geometria de pódio, cujos ápices resultavam em cabelos lisos e negros.

Ele de cinza confundia-se com o fundo branco-encardido do muro; mas era resgatado pelo branco-cor-de-rosa dos uniformes para menininhas. Desejava andar, desconfio; se não fosse a presença de cada irmãzinha pesando desiguais em cada lado de seu corpo. Argumentava algo, precisava partir. Era necessário desprender os corpos. As irmãs, imunes, cada vez mais pressionavam seus rostos contra a carne rija do irmão.

Aproximando-me da cena, constatei uma singularidade: os irmãos, e ali julguei quase certo de que eram irmãos, não eram brasileiros (e aqui uso de uma negativa, pois afirmar a nacionalidade sou incapaz). Eram peruanos, bolivianos ou colombianos, não sei. E nisso não ofendo; como não me sinto ofendido quando japonês, chinês ou coreano são utilizados para me adjetivar.

Para aonde seguia aquele irmão, que com tanto vigor era detido pelas irmãzinhas? Pensei em inúmeras hipóteses. Pensei nas minhas nem tão pequenas irmãzinhas. Pensei na imigração. Pensei no Brasil, e nos seus países vizinhos. Pensei na minha casa. De fato, tentei lembrar da minha casa, e acabei juntando os pedaços das minhas casas. Pensei que tudo aquilo era o começo ou o final de algum filme.