sábado, 24 de maio de 2008

essa mania de voyer...

Não a vi sentar. Quando olhei já estava, ali, sentada. Sentou-se meio de lado, o corpo desvirado a um sentido norte, por pura sorte... De modo que só era possível enxergar as pernas - sobressalentes do ângulo em que as via.

Usava um vestidinho preto, de tecido mole e fresco, colado à coxa. Seus sapatos eram desses retrô, reluzentes sob a fosforescente luz da biblioteca. Baixos e escarlatinos, contrastavam com a brancura dos tornozelos.

Sentada, manteve-se imóvel por um breve período: dois segundos e meio, se bem me recordo. Aí, então, num piscar de olhos nos quais meus olhos atentos olhavam, cruzou as pernas.

O gesto banal, lateralmente visto, deu-se de modo brando e seguro. Escapou-lhe o sapato ao pé, e preso aos dedos manteve-se oscilante, convidativo. Veio-me à idéia que Visconti, apesar de gay, tinha o olhar masculino.

Tratava-se de um rito sagrado, de uma coisa!...


Depois, no balcão vazio, permanecia somente a eternidade de "Les demoiselles", em impressão A4.

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