sábado, 20 de setembro de 2008

amor protocolado

Havia o ritual e sabia muito bem disso. Ritual funesto porém necessário. Por que essa série de etapas de beijos abraços toques nus e fluídos? Descartes deveria ter a sua dose de culpa, julgava. Ou era algo próprio da natureza, com todas as suas artimanhas, nos fazendo de tolos... Julgava mil hipóteses, todas elas infundadas.

Era hoje o dia de estabelecer novas bases. Dia de derrubar barreiras, de limpar a terra e plantar algo novo; sob o ímpeto subterrâneo da angústia.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

nucas e nus

Sou fascinado pelas mulheres.

Sou fascinado pelas mulheres como quem é fascinado por uma fruta: cor forma cheiro textura gosto. Olho-as com desejos infantis. Entre mãos e coxas, perscruto cuidadoso as linhas tênues que definem o meu olhar. Selecionando pedaços, rendo-me diante da teimosia de enquadrar.

É preciso amar as moças, afirmou Brás Cubas, a partir de seu moribundo olhar: a morte deve trazer bom juízo!...

Amo-as desde as suas figuras: imagem a roçar o pescoço nu, com dedos levianos e com a cor de mel.

domingo, 17 de agosto de 2008

Atletas: o Homem Visível


Jade Barbosa - Ginasta brasileira competindo em Pequim


Em texto de 1923, Béla Balázs discursava em favor da recuperação da expressividade do corpo, possível graças à máquina de se produzir imagens em movimento. O corpo recuperava os seus significados, dentro de uma norma que viria a unir todos os povos do globo sob a insígnia de um mesmo gesto universal.

A ginástica possui seus códigos e normas, sem os quais qualquer julgamento se faria impossível. O desenho do movimento, a harmonia das pausas e dos impulsos, compõem o painel do qual se depreenderá a natureza da medalha concedida. A beleza impregnada à presença do corpo.

A câmera recorta essa beleza: escolhe ângulos e partes do espaço. Detalhes: as mãos maltratadas dos repetidos movimentos, os rostos infantis matizados de porcelana, presilhas, pequenos enfeites a adornar uma impressão.

Os vários círculos projetados no ar, riscos de cores do mundo, constroem quase que uma abstração; em oposição à concretude daqueles corpos que parecem não constituídos da mesma matéria que a nossa.

No fim, há rostos. Variedades múltiplas de sentimentos impossíveis de definir, mas tão facilmente compreensíveis. Lágrimas, choros, risos, sorrisos. Enfim, entre a vitória e a derrota repousa a infinidade magnânima da condição humana.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Olhos da minha Província

Fotograma do filme "Os Boas Vidas" ( I Vitelloni) - 1953 - Federico Fellini

Quando criaturazinha, cresci nas ruas de paralelepípedos de um conjunto habitacional que aos poucos se aburguesava. Cresci pisando descalço nas pedras negras de basalto; e aos pulinhos cruzava a rua na direção da quitanda da esquina: jornada recompensada com marias-moles e um balãozinho. Tudo incrivelmente distante e absurdamente prolongado. Escondes-escondes que cobriam todo o quarteirão; todo o quarteirão...

Adolescente, migrei para a casa da avó: a casa de férias. O cheiro da casa da avó. Cheiro doce e misterioso; mistura de incenso, madeira e coisas. O mundo, que era dilatado, estreitou-se. A escola na esquina, e as guloseimas na outra: tudo pendurado na conta da família. Sobre as duas rodas da ligeira bicicleta era possível cobrir todos os espaços: do clube à casa da primeira namorada. As pernas, porém, guiadas por um olhar que perscrutava o horizonte, desejam ir além.

Um olhar solto pelo mundo; olhar deslumbrado; tipicamente provinciano; apaixonado pelo mundo e pelas suas coisas. Um mundo tão extenso, e que se quer próximo – ao alcance dos braços, que num laço tenro deseja embarcá-lo; ao passo em que o deixa escapar de modo vil.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

gosto de final

O semestre acaba de repente. Sem explosão ou suspiro. Num corte seco. Na memória, imagens em faux raccord insistem em esconder os seus interditos. A ansiedade de muito ter feito, e, ao mesmo tempo, tantas outras coisas...

Os projetos de férias, os livros não lidos, os filmes não vistos, os beijos não dados: tudo prorrogado para o intervalo entre um rolo e outro, na longa metragem de nossos destinos.

No final, há sempre uma cartela com os créditos dos responsáveis pelos nossos triunfos, ou pelas nossas mazelas.

Há luz, e depois: olha-se para o lado e pergunta-se: gostou?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

breve solilóquio paulistano



Frame do filme São Paulo SA - Luis Sérgio Person - 1965


A companhia me concede calma na metrópole do anonimato.

Estar sozinho é estar com todos; com todas as pessoas, indistintamente.

Buscar um papo, percorrendo a mata obscura dos assuntos comuns; ser outro, atuar como outro; envergonhar-me; olhar nos olhos com um sorriso frouxo nos lábios; buscar um livro de desatenta leitura; prender-me aos fones de uma sinfonia particular: a trilha sonora da mais pública solidão.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Dragão, Glauber, Paloma e a memória

Depois da batalha contra o tempo e o trânsito de São Paulo, sem saber se dragões ou santos, Miguel e eu alcançamos o Arteplex, onde acompanharíamos uma sessão do recém-restaurado "Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro". A pressa, contudo, foi vã; mas por um bom motivo: a sessão seria para dali uma hora: grátis. Maravilha. Depois de gastar o preço do bilhete na praça de alimentação do shopping; apreensivos, nos apressamos em buscar um lugar na fila, que imaginávamos ser grande. Doce ilusão: não foi dessa vez que Glauber encheu a sala.

De corações condoídos, seguimos para o interior. Outra surpresa: tínhamos visitas ilustres: filha e primeira mulher presentes à sessão, mãe e filha - Paloma Rocha e Helena Ignez. Já li vários dos livros do Glauber - Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Cartas para o Mundo, Século do Cinema (partes), Revolução do Cinema Novo (partes); li também livros sobre Glauber; cineasta, segundo creio, com a maior bibliografia sobre sua obra, idéias ou vida: tudo se interpenetra. Conhecia Paloma e Helena por fotos, textos, cartas: Paloma pequena recebendo do pai cartas carinhosas; e Helena majestosa, deixando a sociedade baiana boquiaberta com sua beleza e liberdade.

Ver Glauber Rocha em tela grande é fabuloso, e merece comentários à parte. Tarefa não pretendida aqui. Fico com a música. A cantoria entoada em comunidade enquanto manifestação do imaginário popular, instrumento de resistência contra a opressão cultural, econômica e social.

Ao fim, breve prosa com Paloma e Joel Pizzini. Aos poucos o público sentia-se mais à vontade, e manifestava-se. Não houve economia de elogios ao filme e ao cineasta. Mas toda a rasgação de seda era perdoada: estávamos entre glaúbicos. Ouvir Paloma, vê-la. Enxergar nela traços semelhantes ao do pai. Os olhos cansados e um pouco melancólicos.

A experiência trouxe a História para perto, para minha frente. As imagens, os filmes, as idéias do cineasta, uma parte da história do Brasil. Paloma materializou aquilo que antes era só especulação: sensação de mito. Filha, coisa de sangue. Memória viva a reviver memórias: restauração da obra e da pessoa do cineasta.
Desmistificou; como era tão próprio do pai.

sábado, 24 de maio de 2008

essa mania de voyer...

Não a vi sentar. Quando olhei já estava, ali, sentada. Sentou-se meio de lado, o corpo desvirado a um sentido norte, por pura sorte... De modo que só era possível enxergar as pernas - sobressalentes do ângulo em que as via.

Usava um vestidinho preto, de tecido mole e fresco, colado à coxa. Seus sapatos eram desses retrô, reluzentes sob a fosforescente luz da biblioteca. Baixos e escarlatinos, contrastavam com a brancura dos tornozelos.

Sentada, manteve-se imóvel por um breve período: dois segundos e meio, se bem me recordo. Aí, então, num piscar de olhos nos quais meus olhos atentos olhavam, cruzou as pernas.

O gesto banal, lateralmente visto, deu-se de modo brando e seguro. Escapou-lhe o sapato ao pé, e preso aos dedos manteve-se oscilante, convidativo. Veio-me à idéia que Visconti, apesar de gay, tinha o olhar masculino.

Tratava-se de um rito sagrado, de uma coisa!...


Depois, no balcão vazio, permanecia somente a eternidade de "Les demoiselles", em impressão A4.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Palhaçada

O palhaço entoava em versos firmes: "que a gente vai levando, que a gente vai levando..."; mas ninguém se incomodava. As mulheres ao lado riam; nem com ele, e sequer dele. O palhaço protestou: exigia público. O cobrador, agora, olhava desconfiado. Logo atrás, a embriaguez, vestida de chapéu e rugas, esbravejou, para desespero do palhaço: "Você não é um palhaço! Você é um profissional!" Era o fim. A palhaçada havia sido burocratizada por um ébrio! O ônibus seguiu e o palhaço perdeu o ponto.

Certo Trecho da(e) vida

Já não era cedo. E pela sombra do muro, rasa, confirmava-se isso.

De qualquer modo, aqui o tempo torna-se irrelevante. Abraços, quando abraços, afugentam o tempo; e posso dizer que ali o abraço era bem atado.

O irmão-menino aparentava desconforto, afinal não se abraça assim em público. Enquanto as irmãs-menininhas concentravam-se mais eram nas pernas, paralelas, ao alcance. Uma de cada lado, e os três juntos, formavam uma geometria de pódio, cujos ápices resultavam em cabelos lisos e negros.

Ele de cinza confundia-se com o fundo branco-encardido do muro; mas era resgatado pelo branco-cor-de-rosa dos uniformes para menininhas. Desejava andar, desconfio; se não fosse a presença de cada irmãzinha pesando desiguais em cada lado de seu corpo. Argumentava algo, precisava partir. Era necessário desprender os corpos. As irmãs, imunes, cada vez mais pressionavam seus rostos contra a carne rija do irmão.

Aproximando-me da cena, constatei uma singularidade: os irmãos, e ali julguei quase certo de que eram irmãos, não eram brasileiros (e aqui uso de uma negativa, pois afirmar a nacionalidade sou incapaz). Eram peruanos, bolivianos ou colombianos, não sei. E nisso não ofendo; como não me sinto ofendido quando japonês, chinês ou coreano são utilizados para me adjetivar.

Para aonde seguia aquele irmão, que com tanto vigor era detido pelas irmãzinhas? Pensei em inúmeras hipóteses. Pensei nas minhas nem tão pequenas irmãzinhas. Pensei na imigração. Pensei no Brasil, e nos seus países vizinhos. Pensei na minha casa. De fato, tentei lembrar da minha casa, e acabei juntando os pedaços das minhas casas. Pensei que tudo aquilo era o começo ou o final de algum filme.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Entre um plano e outro

Amou demais: eis o erro.
Anteriormente a isso, amara de menos e fora infeliz.
Pensava, ao certo, que excessos não acometiam o amor. Excessos eram práticas de atividades viciantes; enquanto o amor, não... o amor, pensava, o libertaria.
Talvez se tivesse sido mais frio. Se, ao menos, tivesse abafado o ímpeto que o conduzia aos gracejos, aos mimos... Se insistisse na imparcialidade que fora até então!... ou mesmo, no jogo que constitui o amar e o ser amado... Aí talvez...
Mas não. Contra todos os cautelosos cuidados que a imprecisão amorosa exige, ousou viver. Escolheu pela experiência no seu estado mais bruto; e por ela foi golpeado.
Sentia-se vivo, portanto. Vivo. E, inconsciente de tudo quanto diz respeito ao amor.