sexta-feira, 18 de julho de 2008

Olhos da minha Província

Fotograma do filme "Os Boas Vidas" ( I Vitelloni) - 1953 - Federico Fellini

Quando criaturazinha, cresci nas ruas de paralelepípedos de um conjunto habitacional que aos poucos se aburguesava. Cresci pisando descalço nas pedras negras de basalto; e aos pulinhos cruzava a rua na direção da quitanda da esquina: jornada recompensada com marias-moles e um balãozinho. Tudo incrivelmente distante e absurdamente prolongado. Escondes-escondes que cobriam todo o quarteirão; todo o quarteirão...

Adolescente, migrei para a casa da avó: a casa de férias. O cheiro da casa da avó. Cheiro doce e misterioso; mistura de incenso, madeira e coisas. O mundo, que era dilatado, estreitou-se. A escola na esquina, e as guloseimas na outra: tudo pendurado na conta da família. Sobre as duas rodas da ligeira bicicleta era possível cobrir todos os espaços: do clube à casa da primeira namorada. As pernas, porém, guiadas por um olhar que perscrutava o horizonte, desejam ir além.

Um olhar solto pelo mundo; olhar deslumbrado; tipicamente provinciano; apaixonado pelo mundo e pelas suas coisas. Um mundo tão extenso, e que se quer próximo – ao alcance dos braços, que num laço tenro deseja embarcá-lo; ao passo em que o deixa escapar de modo vil.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

gosto de final

O semestre acaba de repente. Sem explosão ou suspiro. Num corte seco. Na memória, imagens em faux raccord insistem em esconder os seus interditos. A ansiedade de muito ter feito, e, ao mesmo tempo, tantas outras coisas...

Os projetos de férias, os livros não lidos, os filmes não vistos, os beijos não dados: tudo prorrogado para o intervalo entre um rolo e outro, na longa metragem de nossos destinos.

No final, há sempre uma cartela com os créditos dos responsáveis pelos nossos triunfos, ou pelas nossas mazelas.

Há luz, e depois: olha-se para o lado e pergunta-se: gostou?