quinta-feira, 15 de novembro de 2007

"As Noites de Cabíria" e o trabalho do ator junto à personagem




"Refilmar" a obra-prima felliniana foi certamente uma das experiências mais prazerosas
desse primeiro semestre de estudos. (exercício curricular que consiste em abordar qualquer
filme, e trabalhar sobre ele com relativa liberdade)

A escolha do filme define qual elemento fílmico que o grupo deseja privilegiar no
desenvolvimento do exercício, além de atender a certas demandas pessoais. Desse modo, ao
escolher "as noites de Cabíria" como material "bruto" a partir do qual nosso trabalho iria se
desenvolver, estávamos conscientes dos desafios e dos elementos chaves sobre os quais deveríamos nos debruçar para a realização de um bom trabalho. Estava claro em nossas mentes que esse desafio passaria necessariamente pelo trabalho junto aos atores.

No entanto, conscientes dos fins que desejávamos alcançar, não sabíamos exatamente como
concretizá-los. Os métodos empregados foram adotados apressadamente, e, talvez, mais por uma herança histórica do que por uma reflexão dos efetivos mecanismos para a seleção e o trabalho dos atores. Dentro desse sistema, no fim, acho que tivemos mais sorte do que competência.

Uma certa confusão de conceitos e a descentralização de decisões, resultado da estrutura
de equipe sob a qual o trabalho realizou-se, propiciou uma espécie de desorganização
característica desse método de trabalho; e que prejudicou a obtenção de um resultado final mais
vigoroso. Não que eu não esteja satisfeito com o filme obtido, mas sinto em determinados
momentos falhas cujas causas sou capaz de localizar. Tudo isso é compreensível, e até mesmo
perdoável; mas não desejo ser vítima de considerações elogiosas entremeadas de poréms.

Por outro lado, apesar das falhas técnicas advindas dos elementos anteriormente
apontados, o resultado com os atores, peça principal da obra original, e ainda mais da nossa, é
elogiável (e assim foi na apresentação em classe). Não sou capaz de identificar, ou dividir, o
quanto do resultado de interpretação é fruto da competência dos atores ou do nosso trabalho
junto a eles; isso talvez porque esse procedimento seja desnecessário, ou mesmo, impossível. O
que acho realmente importante é valorizar o ator como pivô de grande parte da dramaturgia
cinematográfica, incluindo aí os trabalhos universitários.

O fato é que, reiterando essa minha posição, conclui-se que a grande parte dos filmes
universitários não se completam em sua potencial força devido à interpretação dos atores. E sem querer empurrar responsabilidades de um lado para o outro, apenas sinalizo o fato e opino sobre possíveis causas.

Se por um lado é raro encontrar atores com técnicas de interpretação para o cinema, de outro, muitas vezes os diretores não dão a devida atenção ao trabalho do ator, ou são simplesmente incapazes de dirigi-los por falta de treino e experiência. Trata-se de um fenômeno ciclico e conflitivo, do qual o filme, no final, sai perdendo (e não é ele que mais importa, acima de diretores e atores?)

Continua...

sábado, 8 de setembro de 2007

Filme: Lado a Lado




Desvirginei. Conta-se aí o primeiro filme. As experiências, apesar de comuns, reverberam de modo distinto em cada um dos realizadores. Quanto a mim, assim posso dizer:

O filme é um exercício de faculdade no sentido de não existir funções definidas (pelo menos em nosso caso); o que dá origem a uma obra multifacetada em maior ou menor medida. Mas, que ao mesmo tempo possibilita o contato dos realizadores com todas as fases e técnicas do processo de elaboração do produto.
Devido a isso, e também, às contigências de produção, o filme estabelece outras significações, impensáveis durante as muitas horas de discussão. Nesse sentido, o filme é uma produto semântico sempre em construção; cria-se um ser autonômo, fora de controle.
A grande maioria dos melhores filmes possuem essa "qualidade" de indefinição e de múltiplas significações; acontece, no entanto, que em se tratando de estudantes, esse dado deve ser pensado de um outro modo. Uma situação hipotética: um filme fabuloso, realmente muito bom, "profissional"; entretanto, totalmente diferente do projeto inicial, devido às intervenções do tudo que existe entre o projeto e o produto. Agora, o mérito deve ser creditado aos estudantes, que na impotência de alcançar um objetivo primeiro, criaram algo distinto, ainda que muito bom?
Atualmente, com a difusão de diferentes canais de distribuição e exibição de conteúdo audiovisual digital, a natureza dos trabalhos curriculares está em processo de mudança. Pensa-se em um público em potencial. E a conseqüência de tal fenômeno é uma preocupação com a comunicabilidade (termo complexo, aqui adotado em seu sentido intuitivo) dos filmes, e com a busca pelo público. Talvez essa seja uma das causas do forte teor pop encontrado na produção dos estudantes. É possível dizer se a vontade de acertar é maior do que o medo de errar?
Muito mais pode, e deve, ser dito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

nós-cinema


Eis a geração pós-muro de Berlim. Eis um mundo sem cartilha ou manual de instruções , dado à sorte de soluções diariamente construídas e desfeitas.
Sei, não é de hoje. Mas, meu tempo não foi ontem, e tampouco será amanhã ; o que importa é o hoje, processo em construção.
Pensar nos filmes, pensar no público, pensar na cultura e na sociedade como um todo. Então, dar sentido e utilidade aos primeiros, evitando sempre a saída fácil, cômoda. É isso que nos cabe? É esse o fardo que desejamos carregar?
Maquinarias que respondem em inglês. Técnica poderosa que concede poderes àqueles que a dominam - apetitoso joguete aos espíritos vaidosos. Técnica importável, tecnologia, não. O martelo do subdesenvolvimento imprime a sua marca no maleável material polimorfo. Maquiá-la?
Inútil restringir a função do cinema, amarrando-o em paradigmas ou em boas intenções. Deve-se, contudo, acreditar piamente no objetivo pretendido, posicionando-o acima de si próprio, dos interesses individuais : obrigação do comunicador; modéstia do artista.

Cinema-religião. O culto à imagem-som, com seus próprios ídolos dentro e fora das telas. Peregrinações em busca dos sagrados recursos de produção. E a promessa de um céu cujo destino é o próprio caminho. E mais: rezas, despachos, rituais diversos inseridos na tecitura de um produto dialeticamente místico-racional.
Cinema-paixão/compulsão. Ver sempre mais, todos os filmes possíveis. A busca da sensação. Viver no pêndulo de excitamento e de decepção que envolvem a criação. Acreditar no improvável; ter a insana medida do impossível.
Cinema-amor. Entrega. Quebrar divisas, fazendo do cinema vida, e da vida, a sua aventura!

Perguntassem agora o que penso do cinema, responder não poderia.

sábado, 4 de agosto de 2007

Temas e Formas no cinema universitário brasileiro


Análise do filme “Conceição: Autor Bom é Autor Morto”
Esse texto não pretende ser de todo abrangente, e tão pouco generalizar tudo que (desconhecidamente) é produzido pelo cinema universitário. O fato é que o pouco que pude assistir (e realmente, revelo, foi muito pouco) apresenta-se marcado pela ousadia da juventude, e também pelo descompromisso característico da mesma. O filme “Conceição” não parece fugir dessa pequena regra.
Se o filme é o resultado de uma produção coletiva, e desse modo, já espeta a primeira crítica a um indefinido “cinema de autor”, o título já não deixa dúvidas: o filme é um discurso, não em favor de um tipo de cinema, mas pretensamente contra um outro: o cinema de autor (?), ambicioso tanto quanto incompreensível.
Acontece, contudo, que a dita produção coletiva não é usada tão somente como argumento em prol à própria crítica contida no filme, mas funciona também como álibi para as diversas irregularidades existentes no filme; como o depoimento de um funcionário (professor?) da UFF, na parte final do filme, pontua. Tem-se aqui um ponto ambíguo, senão, contraditório. Caso o filme seja composto por diversas estorietas, cada qual com uma forma diferente das demais, concedendo, desse modo, ao filme um caráter multifórmico, e, diria, irregular, ele acaba se contradizendo quanto à proposta de criticar um cinema de autor, uma vez que não se trata de um filme do grupo, mas, sim, de cada indivíduo do grupo.
O que incomoda ainda mais é que, não obstante a ausência de uma unidade de estilo formal, há uma unidade temática: o insólito. Não digo que o insólito, ou mesmo o escatológico não devam estar na tela – espaço da libertação, mas não concordo que estejam ali somente pelo fato de estar, o que acaba reduzindo o filme a uma brincadeira vazia e sem graça. Além do mais, e esse ponto revela um gosto pessoal, por que adotar referências e ações de um cinema estrangeiro, adaptando-o às precárias condições nacionais, somente para parodiá-lo de um modo cômico e amargamente sintomático de nossa incapacidade criativa?
Há ainda uma outra leitura, que igualmente não deixa de condenar o filme. As estórias sem pé nem cabeça do grupo de cineastas, aglutinados devido à presença da “Santa Conceição”, acabam condenando seus autores à “morte”. Os personagens pitorescos, envolvidos em situações esdrúxulas, assassinam e condenam seus irresponsáveis autores. Critica-se, assim, um outro lado do acima colocado: os realizadores irresponsáveis e sem qualquer compromisso com relação ao fazer cinema. Entretanto, esse ponto de vista é quase que completamente bloqueado pela opaca presença de elementos e formas opostas a sua defesa. Certamente, se o filme pretende condenar uma produção descompromissada socialmente, baseada em idéias irrefletidas, a sua própria forma e o seu conteúdo são o oposto de tal pretensão.
De qualquer modo, se, talvez, a intenção do filme fosse levantar discussões quanto à realização universitária, ele o fez de modo tradicionalmente brasileiro: através do contra-exemplo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Num mundo de imagens...

Os grilhões do aparelho fotográfico prendem o movimento do fotógrafo dentro do espaço dos incontáveis punctum da fotografia. Do mesmo modo, o espectador também se encontra enclausurado a um modo de distribuição restringido pelo mesmo aparelho fotográfico. Cabe ao fotógrafo (e também ao pseudo-papel de fotógrafo do spectator, uma vez que ele reenquadra o spectator-punctum) encontrar formas de libertação, encontrando novos caminhos de subverter essa lógica, e denunciar a predominância, e até o domínio que as tais imagens técnicas, dentre as quais a fotografia é a mais significativa, exercem sobre a atividade e o potencial humano.
Tendo isso em mente, e mais importante, sabendo que as imagens fotográficas, ao contrário do que comumente é pensado, são textos que apresentam um discurso carregado em si, e não, uma janela aberta para o mundo, cuja função é intermediar a nossa relação com esse mesmo mundo. Sabendo que todo o processo fotográfico é conseqüência de um desenvolvimento histórico de abstração, e assim, dele não pode escapar, é possível desenvolver um raciocínio dialético, capaz de preencher de significados reveladores o texto imagético da escrita, relacionando-o à imagem textual da fotografia.

Olhe as fotos! (roda-pé do texto)

O choque ou o diálogo de duas diferentes informações é capaz de criar novos e diferentes significados. Esse processo talvez seja uma cortina que se abre ante os macerados significados extraídos das fotografias individuais. O contato, a mistura de diferentes informações, suas sobreposições criam novas regiões de conflito, inerente à fotografia, mas multiplicadas pelo processo utilizado. As texturas encontram-se, às vezes repelindo-se ainda mais. A mesma luz que revela também camufla, e esconde pelo seu excesso; desnudando a escuridão, ofusca pela exibição.
É bem sucedida a tentativa de subverter o programa, tentando obter outras possibilidades fora aquelas que lhe pertencem? Imediatamente, não.
A simples observação da foto, com as suas formas, indiciárias ou nem tanto, sua luz e demais elementos, somente oferece uma imediata relação pontual – punctum – com o seu observador. Após isso, a foto, quando propícia para tal, deve ser observada enquanto processo e fenômeno epistemológico. A partir daí ela adquiri uma ação subversiva, transformando o programa em instrumento de libertação.

Olhe as fotos!

Busca-se quase sempre, em qualquer imagem abstrata, algum traço formal que seja figurativo. Em fotografias, essa atitude pode ser auxiliada (ou prejudicada!) por outros elementos, tais como a luz e a textura. E quando não se encontra definições, passa a desacreditar na foto, dizendo-se que se trata de uma montagem ou coisa parecida. Acostumamo-nos tão piamente na fidelidade da imagem fotográfica que quando não encontramos os elementos procurados, culpamo-a de indigna de confiança, sem perceber, no entanto, que ela está ali para revelar outras coisas.
A própria busca por formas conhecidas já pode levar a caminhos interessantes. A imaginação é reativada (volta ao processo epistemológico pré-textual), intuindo-se o que a sombra engoliu e a luz queimou. Destarte, o “biombo” representado pela “fotografia-camisa-de-força” é desfeito: a fotografia não é mais intermediadora entre espectador e realidade, passa a ser, antes, uma forma de exprimir essa realidade, e identificando nela dados muitas vezes ignorados.
A textura revela mas não explica. Sente-a mais do que a vê. A fotografia materializa-se ainda mais, torna-se objeto para se tocar, e os dedos sabem tratar-se de pele. No entanto, essa pele está de tão modo deslocada de seu contexto de corpo, que o desejo do toque é acompanhado da fantasia e da imaginação (onde, e o que estou a tocar?).

Olhe de novo as fotos!

O fato revela um pouco da relação que mantemos com as imagens, o modo como as consumimos. Se a mágica existente no comportamento do receptor de imagens acaba por desvirtuá-lo, tornando-o vítima da armadilha elabora pelo aparelho, a materialização do referente exposto acaba por explicitar ainda mais esse dado. Surge então a fotografia como função de duplo, isto é, de substituto do referente presente no papel. Daí em diante, a relação com a foto adquire outro status, tornando-se ao mesmo tempo mito e fetiche.
Esse fato é sintomático da atual situação que enfrentamos ao lidar com as imagens no mundo contemporâneo. A imensa propagação de imagens, agora também digitalmente construídas, banalizou de vez a existência delas, e valorizou ainda mais aqueles que as constroem artisticamente. Influenciando inclusive em sua distribuição, e inevitável consumo.
Nesse sentido, o ato fotográfico, que envolve tanto a elaboração da foto quanto o seu consumo, pode ser compreendido nos esquadros do mundo moderno, dentro do qual a própria fotografia surgiu. A velocidade, o instantâneo e a técnica tornam tudo mais vulgar e corriqueiro.

Atente às fotos!

Voltando à questão inicial, o esforço maior está na ação de análise detida sobre os elementos –luz, cor, textura, referências – da imagem fotográfica, e descobrir através deles o mecanismo que a envolve, o discurso que ela profere e os mistérios que ela esconde; utilizando-a, assim, como um mecanismo de descoberta, e, não, de mascaramento.

(texto elaborado com base no texto de Vilém Flusser, Filosofia da Caixa Preta)