segunda-feira, 30 de novembro de 2009

30072006

Noite estrangeira. Noite em que se muda a vida assim, com perdas.
É frio.
O peito comprime um coração inexato; que se ao lado esquerdo se encontra, sofre.
A ideia da ausência eterna é estranha. Não a conheço mais. Perdi-a. Pronto. Todas as suas futuras experiências apartaram-se de mim. Padeço por aquilo que ainda sequer possuí.
Ela vai sobreviver. Eu também. Amanhã talvez ainda sofra. Como essas coisas são assim mesmo.
Aí, como é natural, terá uma história. A mais fantástica história de todas, por ser dela. Quem sabe terá o Raulzito, menino esperto.
Sua vida, assim, será estranhamente paralela à minha: alheia. História das infinitas histórias.
Hoje aqui eu mesmo sofro de um mal que não tem cura. Mal inevitável. Não o procurei?
Não sei. O sofrimento é o mesmo. E continua.

sábado, 28 de novembro de 2009

PORQUE DEVEMOS FALAR SOBRE NÓS


No ato da criação somos atravessados violentamente pelas mais angustiantes dúvidas. Criar é crer piamente em determinada ideia, para em seguida descreditá-la completamente: é a maior fonte de insegurança e frustração.

Dentre essas dúvidas que existem para nos angustiar, talvez a mais comum seja “O que dizer?”. Tornamo-nos, então, caçadores de ideias, buscando em todos os cantos por uma boa. Essa questão, contudo, é secundária. Secundária, aqui, não em sua dimensão qualitativa, mas, sim, na ordem epistemológica do processo criativo. Para se encontrar uma boa ideia, é necessário antes definir o que faz de uma ideia, uma ‘boa ideia’. Apesar de óbvio, esse mecanismo não é nada simples; pois nele reside, implicitamente, todos os nossos valores.

A primeira pergunta a ser formulada é “por quê?”. Ela é verdadeiramente cruel, e não raro tentamos insistentemente nos desviar dela. Num certo sentido, ela chega a ser anti-criativa, pois pode barrar muita coisa. Encará-la, uma vez mais, é fonte de angustia; e a angustia, enquanto impasse, é castrante.

Por que realizar um audiovisual-treco? Eis um autodesafio!

O primeiro nível de resposta talvez não ultrapasse a dimensão profissional, atrelada às ambições econômicas e sociais. Ser audiovisualista é também uma atividade profissional; que traz status e conforto quando consagrada.

Tomar a nossa atividade como estritamente trabalho, reservando-lhe essa dimensão, é algo curioso. Sempre achei. Julgo que nossa carreira atrai coisas a mais. De qualquer forma, o que acho estranho é a própria divisão que se atribui – por fontes externas – às nossas vidas. Temos nossa vida profissional de um lado, a nossa vida afetiva de outro, familiar em outro canto, e por aí vai; tudo catalogado nas revistas. A departamentalização de nossas vidas. Se assim não for, é necessário unir tudo, atar o nó das nossas experiências.

Uma vez assumida essa necessidade, de que forma articular, nesse caso, a nossa atividade com as demais esferas da nossa vida? Aqui adentramos no ardiloso terreno da relação entre a vida e a arte. Abujamra, no extinto Provocações, procurava dicotomizar a questão frente aos entrevistados com a pergunta: “uma obra de arte ou um destino humano?” E na história da arte vemos outros tantos inumeráveis exemplos que se debateram com a questão. De fato, parece ser desse questionamento que surgem os significados mais profundos de tudo aquilo que fazemos.

Não se trata, contudo, de encarar a arte como terapia. Apesar de que essa dimensão sempre está presente, pois, se assim não for, a obra acaba por se tornar vazia, artificial. Tudo que toca o sujeito acaba por auxiliá-lo de alguma forma.

No limite, é possível afirmar: a vida é maior que tudo. E a obra de arte, quando autêntica, é consequência direta da vida que se tem. Daqui nasce uma interpretação do gosto estético. Como exemplo, o expressionismo é a decadência e a desilusão existencial materializada em forma estética; expressa, em última instância, essa mentalidade e esse modo de vida perturbados, de forma que a sua fruição se dá pela compreensão das condições materiais e históricas de sua elaboração. Essa ideia poderia substituir a concepção romântica que vê o sofrimento enquanto artifício artístico, para dele se extrair “algo”. De resto, ninguém deseja sofrer.

Devemos fazer filmes que nos ajudem a viver melhor. Trata-se do mesmo procedimento de conviver com as pessoas que nos agradam. É uma relação de convivência com nossas obras.

Um dos desdobramentos naturais dessa atitude é o nosso retorno a nós próprios. Aquilo que efetivamente nos angustia, que está dia a dia nas nossas vidas, em nossos pensamentos. Assumir os 20 e poucos anos em tudo que nele estiver implicado. Não ser complacente quanto à nossa incapacidade, nem ser rigoroso demais com a mesma. Superar na vida o que cabe a ela, e sublimar nos filmes o que se mostrar necessário. Não explorar nossos sintomas enquanto temática: a vida está aí para ser vivida, e nem tudo é lícito filmar.

Nossos filmes acabam servindo a dois propósitos: expressar nossos anseios, e apontar nossas falhas. Se não conseguimos mais nos comunicar, o que isso significa? Se não conseguimos amar, ou se o amor é matéria árdua, e mais difícil aos 20 e poucos, como reverter essa situação? Somos uma geração perversa (no sentido psicanalítico do termo): temos conhecimento das coisas mas temos dificuldade em viver as coisas. Dificuldade em diblar o auto engano.

A franca honestidade é um processo dolorido. E nem sempre com resultados estéticos os mais “perfeitos”. O erro espreita cada decisão.

Porém, se desse “imperativo categórico” que agora se aponta, na sua dimensão ético-artística, não sobram muitas opções, é porque fora dele, as outras decisões mostram-se quase destituídas de significado.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

com a palavra... G.

"Para quem, no Brasil, ingressa na produção cinematográfica, somente a experiência de fazer filme pode colocar o cineasta num angustiante labirinto de dúvidas."

*

"Ser cineasta no Brasil é permanecer no vestíbulo da grande experiência e, por isto, não podemos nem atingir o clímax que possibilita a frustração como resultado orgânico. A nossa frustração é primária, superficial. Ela está mais em consequência da anterior ambição econômica e social. Não é mentira se dissermos que o cineasta nacional é um homem sempre a caminho da inutilidade."

sábado, 14 de novembro de 2009

filmes que poderia fazer II

um filme solar.

um filme alegre.

um filme propositivo.

um filme que afaste toda decadência.

um filme que assuma a vida.

filmes que poderia fazer

penso se poderia fazer um filme de amor. [?]

seria necessário saber o que é isso para se expressar isso?

seria a busca o próprio filme?

um filme feito com amor é um filme de amor?

**

não sei qual o maior filme de amor que conheço. ..

**

Ah... se o amor fosse fácil! ...

mas como coisa rara, fico perguntando:
posso?