quarta-feira, 25 de junho de 2008

breve solilóquio paulistano



Frame do filme São Paulo SA - Luis Sérgio Person - 1965


A companhia me concede calma na metrópole do anonimato.

Estar sozinho é estar com todos; com todas as pessoas, indistintamente.

Buscar um papo, percorrendo a mata obscura dos assuntos comuns; ser outro, atuar como outro; envergonhar-me; olhar nos olhos com um sorriso frouxo nos lábios; buscar um livro de desatenta leitura; prender-me aos fones de uma sinfonia particular: a trilha sonora da mais pública solidão.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Dragão, Glauber, Paloma e a memória

Depois da batalha contra o tempo e o trânsito de São Paulo, sem saber se dragões ou santos, Miguel e eu alcançamos o Arteplex, onde acompanharíamos uma sessão do recém-restaurado "Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro". A pressa, contudo, foi vã; mas por um bom motivo: a sessão seria para dali uma hora: grátis. Maravilha. Depois de gastar o preço do bilhete na praça de alimentação do shopping; apreensivos, nos apressamos em buscar um lugar na fila, que imaginávamos ser grande. Doce ilusão: não foi dessa vez que Glauber encheu a sala.

De corações condoídos, seguimos para o interior. Outra surpresa: tínhamos visitas ilustres: filha e primeira mulher presentes à sessão, mãe e filha - Paloma Rocha e Helena Ignez. Já li vários dos livros do Glauber - Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Cartas para o Mundo, Século do Cinema (partes), Revolução do Cinema Novo (partes); li também livros sobre Glauber; cineasta, segundo creio, com a maior bibliografia sobre sua obra, idéias ou vida: tudo se interpenetra. Conhecia Paloma e Helena por fotos, textos, cartas: Paloma pequena recebendo do pai cartas carinhosas; e Helena majestosa, deixando a sociedade baiana boquiaberta com sua beleza e liberdade.

Ver Glauber Rocha em tela grande é fabuloso, e merece comentários à parte. Tarefa não pretendida aqui. Fico com a música. A cantoria entoada em comunidade enquanto manifestação do imaginário popular, instrumento de resistência contra a opressão cultural, econômica e social.

Ao fim, breve prosa com Paloma e Joel Pizzini. Aos poucos o público sentia-se mais à vontade, e manifestava-se. Não houve economia de elogios ao filme e ao cineasta. Mas toda a rasgação de seda era perdoada: estávamos entre glaúbicos. Ouvir Paloma, vê-la. Enxergar nela traços semelhantes ao do pai. Os olhos cansados e um pouco melancólicos.

A experiência trouxe a História para perto, para minha frente. As imagens, os filmes, as idéias do cineasta, uma parte da história do Brasil. Paloma materializou aquilo que antes era só especulação: sensação de mito. Filha, coisa de sangue. Memória viva a reviver memórias: restauração da obra e da pessoa do cineasta.
Desmistificou; como era tão próprio do pai.