Os grilhões do aparelho fotográfico prendem o movimento do fotógrafo dentro do espaço dos incontáveis punctum da fotografia. Do mesmo modo, o espectador também se encontra enclausurado a um modo de distribuição restringido pelo mesmo aparelho fotográfico. Cabe ao fotógrafo (e também ao pseudo-papel de fotógrafo do spectator, uma vez que ele reenquadra o spectator-punctum) encontrar formas de libertação, encontrando novos caminhos de subverter essa lógica, e denunciar a predominância, e até o domínio que as tais imagens técnicas, dentre as quais a fotografia é a mais significativa, exercem sobre a atividade e o potencial humano.
Tendo isso em mente, e mais importante, sabendo que as imagens fotográficas, ao contrário do que comumente é pensado, são textos que apresentam um discurso carregado em si, e não, uma janela aberta para o mundo, cuja função é intermediar a nossa relação com esse mesmo mundo. Sabendo que todo o processo fotográfico é conseqüência de um desenvolvimento histórico de abstração, e assim, dele não pode escapar, é possível desenvolver um raciocínio dialético, capaz de preencher de significados reveladores o texto imagético da escrita, relacionando-o à imagem textual da fotografia.
Olhe as fotos! (roda-pé do texto)
O choque ou o diálogo de duas diferentes informações é capaz de criar novos e diferentes significados. Esse processo talvez seja uma cortina que se abre ante os macerados significados extraídos das fotografias individuais. O contato, a mistura de diferentes informações, suas sobreposições criam novas regiões de conflito, inerente à fotografia, mas multiplicadas pelo processo utilizado. As texturas encontram-se, às vezes repelindo-se ainda mais. A mesma luz que revela também camufla, e esconde pelo seu excesso; desnudando a escuridão, ofusca pela exibição.
É bem sucedida a tentativa de subverter o programa, tentando obter outras possibilidades fora aquelas que lhe pertencem? Imediatamente, não.
A simples observação da foto, com as suas formas, indiciárias ou nem tanto, sua luz e demais elementos, somente oferece uma imediata relação pontual – punctum – com o seu observador. Após isso, a foto, quando propícia para tal, deve ser observada enquanto processo e fenômeno epistemológico. A partir daí ela adquiri uma ação subversiva, transformando o programa em instrumento de libertação.
Olhe as fotos!
Busca-se quase sempre, em qualquer imagem abstrata, algum traço formal que seja figurativo. Em fotografias, essa atitude pode ser auxiliada (ou prejudicada!) por outros elementos, tais como a luz e a textura. E quando não se encontra definições, passa a desacreditar na foto, dizendo-se que se trata de uma montagem ou coisa parecida. Acostumamo-nos tão piamente na fidelidade da imagem fotográfica que quando não encontramos os elementos procurados, culpamo-a de indigna de confiança, sem perceber, no entanto, que ela está ali para revelar outras coisas.
A própria busca por formas conhecidas já pode levar a caminhos interessantes. A imaginação é reativada (volta ao processo epistemológico pré-textual), intuindo-se o que a sombra engoliu e a luz queimou. Destarte, o “biombo” representado pela “fotografia-camisa-de-força” é desfeito: a fotografia não é mais intermediadora entre espectador e realidade, passa a ser, antes, uma forma de exprimir essa realidade, e identificando nela dados muitas vezes ignorados.
A textura revela mas não explica. Sente-a mais do que a vê. A fotografia materializa-se ainda mais, torna-se objeto para se tocar, e os dedos sabem tratar-se de pele. No entanto, essa pele está de tão modo deslocada de seu contexto de corpo, que o desejo do toque é acompanhado da fantasia e da imaginação (onde, e o que estou a tocar?).
Olhe de novo as fotos!
O fato revela um pouco da relação que mantemos com as imagens, o modo como as consumimos. Se a mágica existente no comportamento do receptor de imagens acaba por desvirtuá-lo, tornando-o vítima da armadilha elabora pelo aparelho, a materialização do referente exposto acaba por explicitar ainda mais esse dado. Surge então a fotografia como função de duplo, isto é, de substituto do referente presente no papel. Daí em diante, a relação com a foto adquire outro status, tornando-se ao mesmo tempo mito e fetiche.
Esse fato é sintomático da atual situação que enfrentamos ao lidar com as imagens no mundo contemporâneo. A imensa propagação de imagens, agora também digitalmente construídas, banalizou de vez a existência delas, e valorizou ainda mais aqueles que as constroem artisticamente. Influenciando inclusive em sua distribuição, e inevitável consumo.
Nesse sentido, o ato fotográfico, que envolve tanto a elaboração da foto quanto o seu consumo, pode ser compreendido nos esquadros do mundo moderno, dentro do qual a própria fotografia surgiu. A velocidade, o instantâneo e a técnica tornam tudo mais vulgar e corriqueiro.
Atente às fotos!
Voltando à questão inicial, o esforço maior está na ação de análise detida sobre os elementos –luz, cor, textura, referências – da imagem fotográfica, e descobrir através deles o mecanismo que a envolve, o discurso que ela profere e os mistérios que ela esconde; utilizando-a, assim, como um mecanismo de descoberta, e, não, de mascaramento.
Tendo isso em mente, e mais importante, sabendo que as imagens fotográficas, ao contrário do que comumente é pensado, são textos que apresentam um discurso carregado em si, e não, uma janela aberta para o mundo, cuja função é intermediar a nossa relação com esse mesmo mundo. Sabendo que todo o processo fotográfico é conseqüência de um desenvolvimento histórico de abstração, e assim, dele não pode escapar, é possível desenvolver um raciocínio dialético, capaz de preencher de significados reveladores o texto imagético da escrita, relacionando-o à imagem textual da fotografia.
Olhe as fotos! (roda-pé do texto)
O choque ou o diálogo de duas diferentes informações é capaz de criar novos e diferentes significados. Esse processo talvez seja uma cortina que se abre ante os macerados significados extraídos das fotografias individuais. O contato, a mistura de diferentes informações, suas sobreposições criam novas regiões de conflito, inerente à fotografia, mas multiplicadas pelo processo utilizado. As texturas encontram-se, às vezes repelindo-se ainda mais. A mesma luz que revela também camufla, e esconde pelo seu excesso; desnudando a escuridão, ofusca pela exibição.
É bem sucedida a tentativa de subverter o programa, tentando obter outras possibilidades fora aquelas que lhe pertencem? Imediatamente, não.
A simples observação da foto, com as suas formas, indiciárias ou nem tanto, sua luz e demais elementos, somente oferece uma imediata relação pontual – punctum – com o seu observador. Após isso, a foto, quando propícia para tal, deve ser observada enquanto processo e fenômeno epistemológico. A partir daí ela adquiri uma ação subversiva, transformando o programa em instrumento de libertação.
Olhe as fotos!
Busca-se quase sempre, em qualquer imagem abstrata, algum traço formal que seja figurativo. Em fotografias, essa atitude pode ser auxiliada (ou prejudicada!) por outros elementos, tais como a luz e a textura. E quando não se encontra definições, passa a desacreditar na foto, dizendo-se que se trata de uma montagem ou coisa parecida. Acostumamo-nos tão piamente na fidelidade da imagem fotográfica que quando não encontramos os elementos procurados, culpamo-a de indigna de confiança, sem perceber, no entanto, que ela está ali para revelar outras coisas.
A própria busca por formas conhecidas já pode levar a caminhos interessantes. A imaginação é reativada (volta ao processo epistemológico pré-textual), intuindo-se o que a sombra engoliu e a luz queimou. Destarte, o “biombo” representado pela “fotografia-camisa-de-força” é desfeito: a fotografia não é mais intermediadora entre espectador e realidade, passa a ser, antes, uma forma de exprimir essa realidade, e identificando nela dados muitas vezes ignorados.
A textura revela mas não explica. Sente-a mais do que a vê. A fotografia materializa-se ainda mais, torna-se objeto para se tocar, e os dedos sabem tratar-se de pele. No entanto, essa pele está de tão modo deslocada de seu contexto de corpo, que o desejo do toque é acompanhado da fantasia e da imaginação (onde, e o que estou a tocar?).
Olhe de novo as fotos!
O fato revela um pouco da relação que mantemos com as imagens, o modo como as consumimos. Se a mágica existente no comportamento do receptor de imagens acaba por desvirtuá-lo, tornando-o vítima da armadilha elabora pelo aparelho, a materialização do referente exposto acaba por explicitar ainda mais esse dado. Surge então a fotografia como função de duplo, isto é, de substituto do referente presente no papel. Daí em diante, a relação com a foto adquire outro status, tornando-se ao mesmo tempo mito e fetiche.
Esse fato é sintomático da atual situação que enfrentamos ao lidar com as imagens no mundo contemporâneo. A imensa propagação de imagens, agora também digitalmente construídas, banalizou de vez a existência delas, e valorizou ainda mais aqueles que as constroem artisticamente. Influenciando inclusive em sua distribuição, e inevitável consumo.
Nesse sentido, o ato fotográfico, que envolve tanto a elaboração da foto quanto o seu consumo, pode ser compreendido nos esquadros do mundo moderno, dentro do qual a própria fotografia surgiu. A velocidade, o instantâneo e a técnica tornam tudo mais vulgar e corriqueiro.
Atente às fotos!
Voltando à questão inicial, o esforço maior está na ação de análise detida sobre os elementos –luz, cor, textura, referências – da imagem fotográfica, e descobrir através deles o mecanismo que a envolve, o discurso que ela profere e os mistérios que ela esconde; utilizando-a, assim, como um mecanismo de descoberta, e, não, de mascaramento.

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