sábado, 28 de novembro de 2009

PORQUE DEVEMOS FALAR SOBRE NÓS


No ato da criação somos atravessados violentamente pelas mais angustiantes dúvidas. Criar é crer piamente em determinada ideia, para em seguida descreditá-la completamente: é a maior fonte de insegurança e frustração.

Dentre essas dúvidas que existem para nos angustiar, talvez a mais comum seja “O que dizer?”. Tornamo-nos, então, caçadores de ideias, buscando em todos os cantos por uma boa. Essa questão, contudo, é secundária. Secundária, aqui, não em sua dimensão qualitativa, mas, sim, na ordem epistemológica do processo criativo. Para se encontrar uma boa ideia, é necessário antes definir o que faz de uma ideia, uma ‘boa ideia’. Apesar de óbvio, esse mecanismo não é nada simples; pois nele reside, implicitamente, todos os nossos valores.

A primeira pergunta a ser formulada é “por quê?”. Ela é verdadeiramente cruel, e não raro tentamos insistentemente nos desviar dela. Num certo sentido, ela chega a ser anti-criativa, pois pode barrar muita coisa. Encará-la, uma vez mais, é fonte de angustia; e a angustia, enquanto impasse, é castrante.

Por que realizar um audiovisual-treco? Eis um autodesafio!

O primeiro nível de resposta talvez não ultrapasse a dimensão profissional, atrelada às ambições econômicas e sociais. Ser audiovisualista é também uma atividade profissional; que traz status e conforto quando consagrada.

Tomar a nossa atividade como estritamente trabalho, reservando-lhe essa dimensão, é algo curioso. Sempre achei. Julgo que nossa carreira atrai coisas a mais. De qualquer forma, o que acho estranho é a própria divisão que se atribui – por fontes externas – às nossas vidas. Temos nossa vida profissional de um lado, a nossa vida afetiva de outro, familiar em outro canto, e por aí vai; tudo catalogado nas revistas. A departamentalização de nossas vidas. Se assim não for, é necessário unir tudo, atar o nó das nossas experiências.

Uma vez assumida essa necessidade, de que forma articular, nesse caso, a nossa atividade com as demais esferas da nossa vida? Aqui adentramos no ardiloso terreno da relação entre a vida e a arte. Abujamra, no extinto Provocações, procurava dicotomizar a questão frente aos entrevistados com a pergunta: “uma obra de arte ou um destino humano?” E na história da arte vemos outros tantos inumeráveis exemplos que se debateram com a questão. De fato, parece ser desse questionamento que surgem os significados mais profundos de tudo aquilo que fazemos.

Não se trata, contudo, de encarar a arte como terapia. Apesar de que essa dimensão sempre está presente, pois, se assim não for, a obra acaba por se tornar vazia, artificial. Tudo que toca o sujeito acaba por auxiliá-lo de alguma forma.

No limite, é possível afirmar: a vida é maior que tudo. E a obra de arte, quando autêntica, é consequência direta da vida que se tem. Daqui nasce uma interpretação do gosto estético. Como exemplo, o expressionismo é a decadência e a desilusão existencial materializada em forma estética; expressa, em última instância, essa mentalidade e esse modo de vida perturbados, de forma que a sua fruição se dá pela compreensão das condições materiais e históricas de sua elaboração. Essa ideia poderia substituir a concepção romântica que vê o sofrimento enquanto artifício artístico, para dele se extrair “algo”. De resto, ninguém deseja sofrer.

Devemos fazer filmes que nos ajudem a viver melhor. Trata-se do mesmo procedimento de conviver com as pessoas que nos agradam. É uma relação de convivência com nossas obras.

Um dos desdobramentos naturais dessa atitude é o nosso retorno a nós próprios. Aquilo que efetivamente nos angustia, que está dia a dia nas nossas vidas, em nossos pensamentos. Assumir os 20 e poucos anos em tudo que nele estiver implicado. Não ser complacente quanto à nossa incapacidade, nem ser rigoroso demais com a mesma. Superar na vida o que cabe a ela, e sublimar nos filmes o que se mostrar necessário. Não explorar nossos sintomas enquanto temática: a vida está aí para ser vivida, e nem tudo é lícito filmar.

Nossos filmes acabam servindo a dois propósitos: expressar nossos anseios, e apontar nossas falhas. Se não conseguimos mais nos comunicar, o que isso significa? Se não conseguimos amar, ou se o amor é matéria árdua, e mais difícil aos 20 e poucos, como reverter essa situação? Somos uma geração perversa (no sentido psicanalítico do termo): temos conhecimento das coisas mas temos dificuldade em viver as coisas. Dificuldade em diblar o auto engano.

A franca honestidade é um processo dolorido. E nem sempre com resultados estéticos os mais “perfeitos”. O erro espreita cada decisão.

Porém, se desse “imperativo categórico” que agora se aponta, na sua dimensão ético-artística, não sobram muitas opções, é porque fora dele, as outras decisões mostram-se quase destituídas de significado.

Um comentário:

Tom Butcher Cury disse...

É Marcão, parece que foi bom não ter encontrado nada pra fazer na sexta a noite!