Fotograma do filme "Os Boas Vidas" ( I Vitelloni) - 1953 - Federico Fellini
Quando criaturazinha, cresci nas ruas de paralelepípedos de um conjunto habitacional que aos poucos se aburguesava. Cresci pisando descalço nas pedras negras de basalto; e aos pulinhos cruzava a rua na direção da quitanda da esquina: jornada recompensada com marias-moles e um balãozinho. Tudo incrivelmente distante e absurdamente prolongado. Escondes-escondes que cobriam todo o quarteirão; todo o quarteirão...
Adolescente, migrei para a casa da avó: a casa de férias. O cheiro da casa da avó. Cheiro doce e misterioso; mistura de incenso, madeira e coisas. O mundo, que era dilatado, estreitou-se. A escola na esquina, e as guloseimas na outra: tudo pendurado na conta da família. Sobre as duas rodas da ligeira bicicleta era possível cobrir todos os espaços: do clube à casa da primeira namorada. As pernas, porém, guiadas por um olhar que perscrutava o horizonte, desejam ir além.
Um olhar solto pelo mundo; olhar deslumbrado; tipicamente provinciano; apaixonado pelo mundo e pelas suas coisas. Um mundo tão extenso, e que se quer próximo – ao alcance dos braços, que num laço tenro deseja embarcá-lo; ao passo em que o deixa escapar de modo vil.
Um comentário:
Aê Marcão!
Adorei!
Esse e todos os outros; belo blog camarada! Bom estar mais perto de seus pensamentos, ou de um outro jeito de você se expressar.
Abraço.
Tom.
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